A ALDEIA GLOBAL
McLuhan pensava que as novas tecnologias de informação e de comunicação transformariam o mundo em uma enorme aldeia.
Em a La Galaxie Gutenberg, publicada há mais de quarenta anos, McLuhan já
anunciava o acontecimento de uma aldeia global: Essa situação é típica de uma aldeia e, desde o advento dos meios eletrônicos de comunicação, da aldeia global. Também é o mundo da publicidade e das relações públicas que é o mais consciente dessa nova e fundamental dimensão que é a interdependência global (McLuhan, 1962, p. 38). E ele repetiu com força em seguida: A nova interdependência eletrônica recria o mundo à imagem da aldeia global (McLuhan, 1967, p. 67).
Daremos razão a McLuhan sobre a crescente interdependência do mundo que resulta na melhoria dos transportes e no crescimento das trocas econômicas tanto quanto da expansão das redes de comunicação, iniciadas desde com as grandes descobertas e a potente ascendência do capitalismo
comercial. Mas a metáfora da aldeia, extremamente será esclarecedora para que possamos compreender o processo de globalização ou mundialização? Depois de amadurecer uma reflexão, a resposta é “não” e me parece necessário procurar em outro lugar que não seja na estreiteza da imagem, em outro lugar que não seja na capacidade de representação, as razões de seu sucesso.
A metáfora da aldeia não é adequada para invocar a crescente interdependência do mundo pelo menos por duas boas razões. Primeiro, a imagem da aldeia não dá conta do processo em curso, porque as redes de troca e de comunicação religam sobre tu do as cidades e não as aldeias.
A globalização é, antes de mais nada, o negócio das grandes cidades do planeta. Os habitantes das aldeias e dos campos são pouco integrados ou deixados de lado.
A segunda razão, ainda mais fundamental, já que a da metáfora da aldeia me parece inadequada, deixa entender que a interdependência seria, na aldeia, maior do que em uma cidade. É o contrário que é verdadeiro, pois nós sabemos, desde os primeiros trabalhos dos pioneiros da sociologia e da economia política, que quanto mais a divisão do trabalho é elaborada em uma coletividade maior é a interdependência entre os seus membros. Não se faz necessário utilizar-se de um longo argumento para demonstrar que a divisão do trabalho é infinitamente mais complexa em uma grande cidade do que em uma aldeia. O individuo da cidade é muito mais dependente dos seus semelhantes que moram no campo. Ele não os conhece pessoalmente, ao contrário do individuo do campo que pode chamar praticamente todos os habitantes da sua comunidade pelo seu nome. De fato, se a metáfora da aldeia global é tão popular, é porque ela tem outros significados, além dos laços reais de interdependência que se desenvolvem no mundo moderno. A aldeia para – entre eles se encontra a maior parte dos leitores de McLuhan e os adeptos da aldeia global – refere-se ao estereótipo do lugar calmo e agradável situado em um ambiente idílico, sem barulho nem poluição, onde vivem em harmonia, amor e amizade os membros de uma pequena comunidade.